Epifania
Um momento súbito de perceção ou revelação experimentado por uma personagem, muitas vezes a mudar a sua compreensão de si própria ou da sua situação.
Última atualizaçãoUma epifania na literatura é um momento súbito e transformador de perceção em que uma personagem entende uma verdade mais profunda sobre si própria, outra pessoa ou o mundo à sua volta. O termo foi adotado como conceito literário por James Joyce, que o descreveu como "uma súbita manifestação espiritual" a surgir dos momentos mais comuns, em que o significado de uma experiência se cristaliza com clareza impressionante. Ao contrário de uma reviravolta de enredo, que muda a situação externa, uma epifania muda a compreensão interna da personagem. É o instante em que as escamas caem dos olhos de uma personagem e ela vê o que esteve sempre lá, mas oculto pela ignorância, negação ou autoengano.
O livro Dublinenses, de Joyce, é construído em torno de epifanias. Em "Os Mortos", a perceção de Gabriel Conroy de que a sua mulher Gretta carregou uma vida inteira de amor por um rapaz que morreu jovem transforma a sua compreensão do casamento e das suas próprias limitações emocionais. Em "Araby", a epifania de um rapaz chega quando reconhece a vaidade e a futilidade da sua idealização romântica. Os contos de Flannery O'Connor são famosos pelas epifanias violentas e carregadas de graça: em "Um Homem Bom É Difícil de Encontrar", o momento de genuína compaixão da avó chega apenas no ponto da morte. Em Mataram a Cotovia, a epifania de Scout no alpendre de Boo Radley, quando finalmente vê o mundo pela perspetiva dele, cristaliza o argumento moral do romance num único momento silencioso.
O desafio de criar epifanias reside na preparação e na contenção. Uma epifania que chega sem preparação suficiente parece imerecida, uma personagem simplesmente a decidir compreender algo em vez de ser forçada à compreensão pela acumulação de experiência. As epifanias mais eficazes são preparadas ao longo de toda a narrativa, com pormenores, imagens e encontros a construir uma pressão que finalmente se liberta no momento de perceção. Igualmente importante é a contenção no momento em si: resiste à vontade de explicar em demasia o que a personagem percebeu. Confia que o leitor vai sentir a mudança. As epifanias mais fortes são representadas através de imagem e sensação em vez de pensamento explícito.