Mostrar, não contar: exemplos e exercícios
"Mostrar, não contar" é o conselho de escrita que mais vezes se dá, e o que mais vezes se percebe mal. Não quer dizer que nunca devas afirmar nada diretamente. Quer dizer que, quando queres que o leitor sinta alguma coisa, tens de lhe dar a matéria-prima para ele próprio a sentir, em vez de lhe entregares uma conclusão.
O que é, na prática, contar
Contar é dar nome a uma emoção, a uma qualidade ou a um estado sem apresentar provas:
A Sarah estava zangada. Sempre tivera mau feitio, e hoje não era exceção. Estava furiosa com o Mark por se ter esquecido do aniversário de casamento.
O leitor ouve três vezes que a Sarah está zangada. Percebe-o com a cabeça, mas não o sente. O escritor fez o trabalho todo e não deixou nada para o leitor viver.
O que é mostrar
Mostrar é dar os pormenores sensoriais, as ações e o diálogo que deixam o leitor chegar sozinho à emoção:
A Sarah pousou os pratos com cuidado, com precisão, cada um bem centrado no seu individual. Endireitou os guardanapos. Alisou um vinco na toalha. Quando o Mark entrou com quarenta minutos de atraso, sem flores e com o saco do ginásio ao ombro, ela sorriu, puxou-lhe a cadeira e disse: «Como correu o teu dia?»
O leitor sente a fúria contida. O cuidado doméstico deliberado, o atraso, a falta de flores, o cumprimento estranhamente educado: estes pormenores criam uma compreensão física que "A Sarah estava zangada" não consegue igualar. Repara também no que se passa por baixo da superfície: o leitor deduz a tensão, o passado, o confronto que está para vir. É essa dedução que dá vida à cena.
Quando contar é a escolha certa
Esta é a parte que a maioria dos conselhos de escrita deixa de fora: contar nem sempre está errado. É a ferramenta certa quando:
- Atravessas períodos sem grande importância. "Passaram três semanas" está perfeitamente bem. Não precisas de mostrar os vinte e um dias.
- Precisas de estabelecer contexto depressa. "Era carpinteiro havia trinta anos" pode ser contado de passagem. Mostrá-lo num flashback de várias páginas abrandaria a história para um ganho mínimo.
- A emoção não é o centro da cena. Se uma personagem secundária está nervosa e isso não é importante para o enredo, um rápido "Parecia nervosa" faz a história avançar sem desperdiçar a atenção do leitor.
No fundo, a regra é uma questão de proporção: mostra os momentos que mais importam na tua história e conta o resto de forma eficiente.
Exemplos de antes e depois
Traço de personagem
Contar: O James era generoso.
Mostrar: O James enfiou a nota de vinte no estojo do músico de rua, levantou a gola do casaco e seguiu caminho antes que o homem lhe pudesse agradecer. A renda vencia na sexta-feira.
A versão que conta põe um rótulo. A versão que mostra prova o traço através da ação, e o pormenor da renda dá sentido à generosidade: custa-lhe alguma coisa.
Ambiente
Contar: A casa era assustadora.
Mostrar: A porta da frente abriu-se para dentro antes de ela lhe tocar. Lá dentro, o papel de parede do corredor descolava-se em longas tiras, e algures no andar de cima uma tábua do soalho rangeu sob um peso que não devia estar ali.
Relação
Contar: Já não eram próximos.
Mostrar: Antes, dividiam o táxi para casa. Agora o David olhava para o telemóvel enquanto a Lena vestia o casaco, e os dois diziam «Até amanhã» sem levantar os olhos.
Exercícios práticos
Estes exercícios foram pensados para sessões de 15 minutos. Fá-los com um temporizador: a limitação ajuda.
Exercício 1: emoção sem lhe dar nome
Escreve uma cena de 200 palavras em que uma personagem sente uma emoção forte (luto, ciúme, entusiasmo, vergonha) sem nunca dares nome à emoção. Usa apenas sensações físicas, ações e diálogo. No fim, pede a um leitor que identifique a emoção. Se acertar, estás a mostrar bem.
Exercício 2: reescreve uma passagem contada
Procura no teu próprio trabalho um parágrafo em que contaste em vez de mostrar. Reescreve-o com o dobro do tamanho, substituindo cada afirmação abstrata por um pormenor concreto. Depois volta a encurtá-lo: vais ver que os pormenores mais fortes sobrevivem naturalmente.
Exercício 3: o exercício dos objetos
Descreve uma divisão de forma a revelar a personalidade de quem lá vive, sem essa pessoa estar presente. Escolhe cinco objetos concretos e descreve-os de forma a dizer ao leitor quem vive ali. Uma pilha de livros da biblioteca sem nenhum marcador. Um troféu de corrida a servir de calço de porta. Um frigorífico só com molhos e cerveja.
Exercício 4: diálogo com subtexto
Escreve uma conversa entre duas personagens que discutem por causa de uma coisa banal (de quem é a vez de lavar a loiça) quando o verdadeiro conflito é algo maior (uma delas quer acabar a relação). Nenhuma das personagens pode mencionar diretamente o verdadeiro conflito.
O teste
Quando estiveres a rever, pergunta-te em cada momento emocional: "Estou a dar nome ao sentimento, ou a criar as condições para o leitor o sentir?" Se estás a dar-lhe nome, procura o pormenor físico concreto, a ação reveladora ou o silêncio carregado que podem substituir o rótulo.
O objetivo não é eliminar da tua prosa tudo o que é contado. O objetivo é garantir que cada momento importante é vivido, e não apenas relatado.
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