Suspensão da descrença
A disponibilidade do leitor para aceitar elementos irrealistas ou fantásticos como plausíveis no contexto de uma história.
Última atualizaçãoA suspensão da descrença é o contrato implícito entre quem conta a história e quem a recebe: o público aceita as premissas de um mundo ficcional, por mais improváveis que sejam, em troca de uma experiência narrativa envolvente. O conceito foi formulado pela primeira vez pelo poeta Samuel Taylor Coleridge em 1817, que o descreveu como a disponibilidade para conceder aos relatos fantásticos «uma aparência de verdade», capaz de obter, «para estas sombras da imaginação, aquela suspensão voluntária e momentânea da descrença que constitui a fé poética». Todas as obras de ficção exigem algum grau de suspensão da descrença: até o romance mais realista pede ao leitor que aceite que as personagens são pessoas reais e que os acontecimentos se deram de facto. O termo, no entanto, usa-se sobretudo a propósito dos géneros com elementos abertamente impossíveis, como a fantasia, a ficção científica, o terror e as histórias de super-heróis, em que o público tem de aceitar premissas que contradizem de forma flagrante a realidade de todos os dias.
Manter a suspensão da descrença é um dos grandes desafios da ficção especulativa. A série Harry Potter, de J. K. Rowling, deve muito do seu êxito ao facto de o mundo mágico assentar em alicerces emocionais reconhecíveis, como as rivalidades na escola, os laços de família e a luta entre o bem e o mal, que ancoram os elementos fantásticos em experiências próximas do leitor. A Origem, de Christopher Nolan, pede ao público que aceite a premissa dos sonhos partilhados, mas conquista essa aceitação ao fixar regras claras logo de início e ao cumpri-las com rigor à medida que o enredo se complica. Em sentido inverso, a suspensão da descrença pode desfazer-se com contradições internas, como sentiram muitos espectadores nas últimas temporadas de A Guerra dos Tronos, em que as personagens passaram a percorrer distâncias enormes com uma rapidez inverosímil, quebrando regras que a própria série tinha estabelecido. Estes exemplos mostram que a suspensão da descrença não é concedida sem condições: tem de ser mantida continuamente, com coerência interna e ofício narrativo.
Para manteres a suspensão da descrença do leitor, fixa cedo as regras de base da tua história e cumpre-as fielmente. O leitor aceita quase qualquer premissa, desde que lhe seja apresentada com segurança e coerência; o que não aceita é um mundo que contradiz a sua própria lógica. Dá especial atenção aos momentos em que mais pedes ao leitor: a primeira aparição de um elemento fantástico, as grandes reviravoltas e os confrontos finais. Nesses momentos de risco, rodeia o elemento improvável de pormenores concretos e bem assentes, que prendam o leitor ao mundo. Evita que as personagens reajam com indiferença a acontecimentos extraordinários, a não ser que o seu mundo os tenha tornado banais. Tem um cuidado especial com a lógica emocional das personagens: o leitor perdoa uma física inverosímil muito antes de perdoar uma psicologia inverosímil. Se a reação de uma personagem a uma crise soar a falso, a ilusão inteira pode ruir. Pensa na suspensão da descrença como numa conta bancária: cada pormenor coerente e bem trabalhado é um depósito, e cada contradição ou facilidade é um levantamento. Mantém o saldo elevado, e os teus leitores seguem-te para onde quer que vás.