Modelo

Modelo de bíblia de construção de mundo

Última atualização 10 min de leitura

A bíblia de construção de mundo é o documento de referência para tudo o que existe no teu mundo ficcional. É a fonte única de verdade que mantém a tua história coerente ao longo de centenas de páginas, vários rascunhos e (se estiveres a escrever uma série) vários livros. Sem ela, acabas com uma personagem cuja cor dos olhos muda de capítulo para capítulo, um sistema monetário que se contradiz e um sistema de magia com regras que mudam consoante aquilo de que o enredo precisa no momento.

Este modelo foi pensado para fantasia, ficção científica e ficção especulativa, mas qualquer história que invente elementos relevantes do seu mundo pode beneficiar dele. Autores de ficção histórica que acompanham pormenores fiéis à época, autores de thrillers que constroem agências de informações ficcionais, autores de romances amorosos que criam pequenas cidades que se repetem ao longo de uma série: todos beneficiam de ter um documento de referência estruturado.

Não tens de preencher todas as secções antes de começares a escrever. Muitos autores constroem a sua bíblia em paralelo com o rascunho, acrescentando pormenor à medida que a história o exige. O modelo existe para te dar um lugar para tudo, para que, quando precisares de consultar alguma coisa a meio do rascunho, saibas exatamente onde procurar.

Secção 1: visão geral do mundo

Começa pelo panorama geral. Esta secção estabelece a natureza fundamental do teu mundo e orienta quem quer que abra este documento (incluindo o teu eu do futuro).

Conceito do mundo

Descreve o teu mundo em duas a três frases. O que o torna distinto? Qual é a ideia central que o separa do mundo real ou de outros mundos ficcionais do teu género? Isto não é um logline da tua história - é um logline do próprio mundo.

Tom e estética

Que sensação transmite este mundo? Cru e realista, ou mítico e grandioso? Tecnologicamente elegante ou enferrujado e improvisado? O registo tonal do teu mundo afeta tudo, da arquitetura aos diálogos. Nomeá-lo explicitamente ajuda a manter a coerência.

Inspirações e referências

Lista as culturas reais, os períodos históricos, os mundos ficcionais existentes ou as referências visuais que alimentam o teu mundo. Não se trata de copiar - trata-se de ter um ponto de referência comum. "A estrutura política inspira-se nas cidades-estado italianas do Renascimento, o sistema de magia é influenciado por tradições espirituais da África Ocidental e a estética visual vem da arquitetura Arte Nova." Estas referências mantêm o mundo coerente quando estiveres a mergulhar nos pormenores.

Secção 2: geografia e ambiente

O mundo físico molda tudo o resto - rotas comerciais, fronteiras culturais, estratégia militar, vida quotidiana. Não tens de desenhar um mapa antes de começar (embora muitos autores o achem útil), mas tens de compreender as linhas gerais da geografia do teu mundo.

Regiões e marcos principais

Lista os locais-chave do teu mundo. Para cada um, anota o clima, o terreno, os recursos naturais e a importância estratégica. Que regiões são ricas e porquê? Quais são disputadas? Onde estão as barreiras naturais (montanhas, oceanos, desertos) que dividem populações e criam diferenças culturais?

Clima e estações

O teu mundo segue estações semelhantes às da Terra ou tem padrões próprios? O clima afeta a agricultura, o vestuário, a arquitetura, as migrações e a guerra. Se a tua história abranger um ano inteiro, saber quando chegam as chuvas ou quando gelam os rios pode dar uma estrutura natural ao enredo.

Flora e fauna

Se o teu mundo inclui plantas e animais inventados, cataloga-os aqui. Concentra-te nos que afetam a vida quotidiana, a economia ou o enredo. Um erro comum na construção de mundos é inventar dezenas de criaturas que nunca aparecem na história. Escolhe bem. As plantas que as pessoas comem, os animais que montam ou temem, os organismos que produzem materiais valiosos - são esses que importam.

Mapas e distâncias

Mesmo um esboço aproximado da geografia do teu mundo pode evitar erros de continuidade. Anota os tempos de viagem entre locais-chave com os meios de transporte disponíveis no teu mundo. Se as tuas personagens andam a cavalo, levam cerca de quatro a cinco dias a percorrer 160 quilómetros a um ritmo sustentável. Se têm comboios ou dirigíveis, ajusta em conformidade. Os leitores reparam quando as distâncias não são coerentes.

Secção 3: história e cronologia

A história é o que dá peso a um mundo. Nem tudo tem de aparecer na história - aliás, a maior parte não deve aparecer -, mas conhecê-la permite-te escrever um mundo que parece ter existido antes da primeira página.

Mito da criação ou origem

Como acreditam os povos deste mundo que ele começou? Pode ter uma origem cosmológica literal (os deuses moldaram o mundo a partir do caos) ou uma origem histórica (as naves coloniais chegaram há três séculos). Em qualquer caso, a história da origem molda os pressupostos mais profundos da cultura sobre propósito, moral e destino.

Principais eras históricas

Divide a história do teu mundo em grandes eras. Para cada uma, anota os acontecimentos determinantes, os poderes dominantes e as mudanças culturais. Não precisas de pormenor fino para cada era - concentra-te nas que moldam diretamente o mundo em que as tuas personagens vivem.

Acontecimentos históricos fundamentais

Lista os acontecimentos que as tuas personagens teriam aprendido na escola (ou à volta da fogueira, ou pela tradição oral). Guerras, pestes, descobertas, revoluções, catástrofes naturais. Para cada um, anota como mudou a ordem política ou social e se os seus efeitos ainda se fazem sentir no presente da história.

Cronologia

Cria uma cronologia com os acontecimentos mais importantes. Inclui as datas de nascimento das personagens vivas e as datas dos acontecimentos recentes que afetam o enredo. Esta cronologia é a tua salvaguarda de continuidade. Quando uma personagem diz "a guerra acabou há vinte anos", podes confirmar na cronologia e garantir que as contas batem certo.

Secção 4: culturas e sociedades

A cultura é a forma como grupos de pessoas organizam a vida, exprimem os seus valores e se distinguem de outros grupos. Uma cultura bem construída parece orgânica - os seus costumes, crenças e conflitos crescem de forma lógica a partir da geografia, da história e das condições económicas.

Principais grupos culturais

Para cada cultura relevante do teu mundo, documenta:

  • Estrutura social: como está organizada a sociedade? Sistemas de castas, hierarquias de classe, estruturas igualitárias, organização tribal? Quem detém o poder e como é transmitido?
  • Valores e normas: o que preza esta cultura? Honra, conhecimento, riqueza, devoção, liberdade individual, harmonia coletiva? Que comportamentos são celebrados e quais são tabu?
  • Vida quotidiana: como é um dia típico de uma pessoa comum nesta cultura? O que come, como se veste, que trabalho faz, como passa o tempo livre?
  • Arte e expressão: que formas de arte, música, literatura ou espetáculo são valorizadas? A arte revela o que uma cultura considera belo, importante e digno de ser preservado.
  • Costumes e rituais: ritos de nascimento, cerimónias de passagem à idade adulta, costumes matrimoniais, práticas funerárias, observâncias religiosas, festas sazonais. São os momentos em que a cultura se torna visível e dramática.

Relações entre culturas

Como se relacionam entre si as diferentes culturas do teu mundo? Relações comerciais, alianças, rivalidades, preconceitos, histórias partilhadas, conflitos por resolver. O atrito entre culturas é uma fonte rica de conflito narrativo, mas tem de estar ancorado em causas históricas e económicas concretas, e não numa hostilidade arbitrária.

Religião, espiritualidade e sistemas de crenças

A religião merece um tratamento próprio, porque molda a moral, a vida quotidiana, a arte, o conflito e a forma como as pessoas compreendem o sofrimento e a morte. Não precisas de inventar uma teologia completa, mas tens de saber em que acreditam as tuas personagens - e o que a sociedade delas trata como sagrado, profano, herético ou impronunciável.

  • Cosmologia: o que acham os crentes que acontece depois da morte? De onde veio o mundo? Há um deus, muitos, nenhum, ou algo mais estranho?
  • Prática: como se exprime a crença no dia a dia? Oração, sacrifício, meditação, peregrinação, regras alimentares, dias santos, objetos sagrados?
  • Instituições: há sacerdócios, templos, ordens monásticas, escolas de teologia? Têm poder político? Quem cobra os dízimos?
  • Heresia e dúvida: que crenças são consideradas perigosas e o que acontece a quem as defende? As heresias de uma sociedade dizem-te aquilo que mais a inquieta.
  • Crença popular: mesmo num mundo com uma religião oficial, as pessoas comuns mantêm muitas vezes superstições, rituais domésticos e costumes herdados que se afastam da doutrina. É aqui que vive a maior parte da textura.

Um exercício útil: escreve a resposta de uma linha que uma pessoa comum de cada cultura daria se a parasses na rua e lhe perguntasses: "Porque estamos aqui?" A resposta revela mais sobre o mundo do que cem páginas de teologia.

Secção 5: governo e política

As estruturas políticas determinam quem tem o poder, como o obteve e o que acontece quando alguém o desafia. Mesmo as histórias que não são explicitamente políticas existem dentro de sistemas políticos que moldam as opções e as restrições das personagens.

Sistemas de governo

Para cada grande entidade política, descreve a forma de governo, o processo de sucessão ou de eleição e o equilíbrio (ou desequilíbrio) de poder. Anota as estruturas formais e as informais - a cadeia de comando oficial e os canais paralelos onde se tomam as verdadeiras decisões.

Panorama político atual

Que tensões políticas estão ativas quando a tua história começa? Facções, alianças, disputas territoriais, crises de sucessão, movimentos de reforma. O panorama político é o tabuleiro onde as tuas personagens estão a jogar, quer se apercebam disso quer não.

Lei e justiça

Como se fazem e se aplicam as leis? O que constitui um crime e quais são as penas? A justiça aplica-se por igual a todas as classes e culturas, ou é seletiva? O sistema jurídico revela os valores declarados de uma sociedade e os seus valores reais, e a distância entre os dois é sempre interessante.

Secção 6: magia, tecnologia ou sistemas especulativos

Se o teu mundo inclui magia, tecnologia avançada ou outros elementos especulativos, eles precisam de regras. Um poder ilimitado e indefinido tira tensão a uma história. Os leitores aceitam o impossível - não aceitam o incoerente.

Regras e limitações

Define o que o sistema pode e não pode fazer. A Primeira Lei de Brandon Sanderson diz que a capacidade de um autor resolver problemas com magia é diretamente proporcional ao grau em que o leitor compreende essa magia. Se os teus leitores não compreenderem as regras, a tua magia não pode resolver o clímax sem parecer batota. Documenta as regras com clareza: o que custa, o que não consegue fazer e o que acontece quando corre mal.

Fonte e origem

De onde vem este poder? É inato, aprendido, concedido por forças exteriores, derivado da tecnologia? A fonte afeta quem tem acesso e quais são as implicações sociais. Um mundo onde a magia se herda cria dinâmicas sociais diferentes de um mundo onde qualquer pessoa a pode aprender.

Impacto social

Como afeta este sistema as sociedades que o usam? Um mundo com magia de cura tem atitudes diferentes perante os ferimentos e a morte. Um mundo com viagens mais rápidas do que a luz tem uma economia e uma política diferentes das de um mundo limitado pela relatividade. O elemento especulativo deve repercutir-se em todos os aspetos do mundo em que toca.

Praticantes e instituições

Quem usa este sistema e como se organizam os seus utilizadores? Guildas, academias, sacerdócios, unidades militares, praticantes solitários? Como os vê a sociedade - com respeito, medo, desconfiança, indiferença?

Secção 7: economia e comércio

O dinheiro e os recursos alimentam o conflito, motivam as personagens e moldam as hierarquias sociais. A economia de um mundo não tem de ser complexa, mas tem de ser coerente.

  • Moeda e sistemas de troca: qual é o meio de troca? Moedas, papel-moeda, troca direta, créditos digitais, favores, energia mágica? Como funciona o comércio entre regiões?
  • Recursos e indústrias fundamentais: quais são os recursos mais valiosos e quem os controla? A escassez de recursos é uma das fontes de conflito mais fiáveis na construção de mundos.
  • Distribuição da riqueza: quem é rico e quem é pobre, e porquê? A desigualdade económica cria tensão a todos os níveis da sociedade e dá motivação a personagens de todo o espectro social.

Secção 8: línguas e convenções de nomes

Não tens de inventar línguas inteiras (a menos que queiras), mas precisas de convenções de nomes coerentes. Os nomes de pessoas, lugares, alimentos e conceitos culturais devem parecer vir da mesma tradição linguística dentro de uma mesma cultura e devem soar distintos entre culturas diferentes.

  • Padrões de nomes: documenta os padrões fonéticos, as estruturas silábicas e as tradições de nomes de cada cultura. Se uma cultura usa consoantes duras e sílabas curtas e outra usa vogais fluidas e palavras mais longas, os leitores vão sentir intuitivamente a diferença cultural sem que ninguém lha explique.
  • Termos-chave e glossário: lista as palavras inventadas, os títulos e os conceitos que aparecem na história. Inclui indicações de pronúncia se as palavras não forem intuitivas. Esta secção serve de referência durante a escrita e de possível apêndice para os leitores.

Como personalizar este modelo

  • Para fantasia de mundo secundário: todas as secções são relevantes. Dá prioridade às que mais afetam diretamente o teu enredo, mas desenvolve as outras conforme for preciso para manter a coerência.
  • Para ficção científica: a tecnologia e o seu impacto social (secção 6) podem precisar de mais profundidade. As secções sobre magia podem ser adaptadas à tecnologia avançada, à biologia alienígena ou à física teórica.
  • Para fantasia urbana ou ficção do futuro próximo: a maior parte do mundo real mantém-se. Concentra-te no que é diferente - a sociedade mágica escondida, a mudança tecnológica recente, o desvio da história alternativa - e documenta como essas diferenças se repercutem.
  • Para ficção histórica: reaproveita este modelo como bíblia de pesquisa. Substitui os elementos especulativos por factos históricos e usa-o para acompanhar os pormenores que tens de manter exatos.
  • Para séries: trata este documento como uma referência viva. Atualiza-o depois de cada livro. Assinala os pormenores que já apareceram em texto publicado (e que, por isso, estão fixados) e os que ainda são flexíveis.
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