Modelo de plano do romance
Todos os romances começam como um conjunto de ideias, cenas e personagens a flutuar na tua cabeça. É entre esse caos mental entusiasmante e um manuscrito acabado que a maioria dos autores fica encalhada. Um plano faz a ponte. Não substitui o processo criativo - dá-lhe um sítio para onde ir.
Este modelo oferece uma estrutura flexível para organizares o teu romance, da premissa ao planeamento de cada cena. Funciona para quem planeia e quer todos os pormenores definidos antes de escrever e para quem escreve por descoberta e só quer estrutura suficiente para não se meter num beco sem saída. Usa todas as secções ou apenas as de que precisas. A estrutura adapta-se ao teu processo, e não o contrário.
Secção 1: premissa e conceito central
Antes de planeares qualquer cena, tens de formular de que trata, de facto, o teu romance. Não o enredo - o assunto. Esta secção obriga-te a destilar a história nos seus componentes essenciais antes de a complexidade se instalar.
Logline
Escreve a tua história numa frase. Segue esta fórmula como ponto de partida: Quando [incidente desencadeador], [protagonista] tem de [objetivo], senão [o que está em jogo]. Se não consegues meter a tua história numa só frase, talvez ainda não saibas qual é o núcleo da história. Não faz mal - trabalhar este modelo vai ajudar-te a descobri-lo.
Tema
Enuncia a questão ou o argumento central que o teu romance explora. O tema não é uma mensagem que impões à história. É a pergunta a que a história não para de regressar. "A lealdade é mais importante do que a verdade?" ou "Conseguem as pessoas fugir ao mal que lhes fizeram na infância?" O tema não precisa de ter resposta quando começas. As tuas personagens vão defender lados diferentes.
Género e tom
Identifica as convenções de género com que estás a trabalhar e o registo tonal que procuras. Isto importa porque o género cria expectativas no leitor, e o teu plano deve ter em conta se pretendes cumprir, subverter ou misturar essas expectativas.
Visão geral do cenário
Descreve o mundo da tua história em traços largos. Época, local, contexto social e quaisquer regras que governem o mundo (especialmente importantes na ficção especulativa). Vais alargar isto mais tarde, se for preciso, mas até a ficção contemporânea beneficia de uma noção de lugar deliberada.
Secção 2: personagens
O teu plano tem de ter em conta as pessoas que movem a história. Nesta fase não precisas de perfis completos (embora o Modelo de perfil de personagem esteja disponível quando quiseres aprofundar), mas precisas do suficiente para perceber como cada personagem se liga ao conflito central.
Protagonista
Nome, papel e uma breve descrição. Depois, responde a três perguntas: o que quer? De que precisa (e em que é que isso difere do que quer)? Qual é a mentira interior, ou a crença errada, que leva consigo para a história?
Antagonista
O antagonista não tem de ser um vilão. Tem de ser a força que mais diretamente se opõe ao objetivo do protagonista. Define o seu objetivo e porque choca com o do protagonista. Os melhores antagonistas acreditam que têm razão.
Personagens secundárias
Lista as personagens secundárias importantes. Para cada uma, anota a relação com o protagonista, o seu próprio desejo ou objetivo e a forma como espelha, contrasta ou complica o arco do protagonista. As personagens secundárias que não servem a tensão central da história tendem a diluir a narrativa. É aqui que apanhas isso a tempo.
Secção 3: estrutura em três atos
É a espinha dorsal do teu plano. Podes usar outro modelo estrutural, se preferires (a jornada do herói, o Story Circle, uma estrutura em quatro atos), mas a estrutura em três atos dá uma base fiável à qual a maioria dos outros modelos se pode sobrepor.
Primeiro ato: apresentação (aproximadamente os primeiros 25%)
Define os seguintes elementos:
- Imagem ou cena de abertura: qual é a primeira coisa que o leitor vê? Deve estabelecer o mundo comum do protagonista e sugerir o tom da história.
- Incidente desencadeador: o acontecimento que perturba o statu quo do protagonista e põe o conflito central em movimento. Coloca-o, no máximo, por volta dos 12-15%. Se chegar mais tarde, a tua abertura está provavelmente a arrastar-se.
- Ponto de viragem do primeiro ato: o momento em que o protagonista se compromete com o problema central. Atravessa um limiar, faz uma escolha ou é forçado a entrar no conflito principal. É o ponto sem retorno que lança o segundo ato.
Segundo ato: confronto (aproximadamente 25-75%)
O segundo ato é onde a maioria dos planos fica magra e a maioria dos rascunhos descarrila. Divide-o em duas metades, com o ponto médio como dobradiça.
- Ação ascendente (primeira metade): o protagonista persegue o objetivo, enfrenta obstáculos crescentes e tenta soluções que funcionam em parte mas criam novos problemas. Nesta secção, a personagem é sobretudo reativa - responde aos acontecimentos em vez de os conduzir.
- Ponto médio: uma revelação, reviravolta ou mudança que altera a forma como o protagonista compreende o conflito. Depois do ponto médio, o protagonista passa de reativo a proativo. É o centro estrutural do teu romance e merece um planeamento cuidadoso.
- Complicações (segunda metade): aumenta o que está em jogo. Perdem-se aliados. O antagonista ganha terreno. Os subenredos convergem para o conflito principal. Tudo se constrói rumo a um ponto de crise.
- Ponto de viragem do segundo ato (momento mais negro): o protagonista sofre o maior revés. O objetivo parece impossível. A mentira interior volta a impor-se. É o ponto mais baixo que dá sentido ao clímax por contraste.
Terceiro ato: resolução (aproximadamente os últimos 25%)
- Clímax: o protagonista enfrenta diretamente o conflito central. O arco interior e o enredo exterior convergem. O protagonista tem de fazer uma escolha definitiva que mostre se abraçou a verdade ou se rendeu à mentira.
- Ação descendente: o rescaldo imediato do clímax. Tratam-se as pontas soltas. As consequências da escolha do clímax fazem-se sentir.
- Imagem ou cena final: o espelho da tua abertura. Mostra como mudaram (ou não mudaram) o protagonista e o seu mundo. A distância entre a imagem de abertura e a de fecho é a medida do arco da tua história.
Secção 4: acompanhamento dos subenredos
Lista cada subenredo e anota onde se cruza com o enredo principal. Cada subenredo deve pressionar o conflito central do protagonista ou iluminar o tema de outro ângulo. Para cada subenredo, responde: como se liga isto à questão temática da história principal? Se não consegues responder com clareza, o subenredo pode ter de ser repensado.
Acompanha os momentos-chave de cada subenredo: onde é apresentado, onde se intensifica e onde se resolve. Os subenredos que se resolvem ao mesmo tempo que o enredo principal criam uma sensação satisfatória de convergência. Os que se arrastam para lá do clímax fazem o final parecer inchado.
Secção 5: divisão cena a cena
É o nível mais fino do teu plano. Nem todos os autores precisam deste pormenor, mas quem precisa acha-o inestimável para manter o impulso durante o rascunho.
Para cada cena, anota o seguinte:
- Número da cena e capítulo: onde encaixa esta cena no manuscrito.
- Personagem que dá o ponto de vista: em que perspetiva estamos?
- Objetivo da cena: o que quer a personagem que dá o ponto de vista nesta cena?
- Conflito: o que se lhe opõe?
- Desfecho: consegue o que quer? (A resposta deve ser normalmente "não" ou "sim, mas", para manter a tensão.)
- Movimento no arco: como é que esta cena faz avançar ou complica o arco interior da personagem?
- Propósito da cena: o que consegue esta cena para o leitor? Se uma cena não faz avançar o enredo, não aprofunda a personagem nem constrói o mundo de uma forma que importe mais tarde, talvez não precise de existir.
Secção 6: notas de pesquisa e referência
Mantém uma secção permanente para a pesquisa que vai alimentar o teu rascunho. Pode incluir pormenores históricos, informação técnica, descrições de locais ou contexto cultural. Manter as notas de pesquisa dentro do plano, e não noutro sítio, significa que as podes consultar enquanto planeias cenas sem interromper o teu fluxo de trabalho.
Como personalizar este modelo
Este modelo é um ponto de partida, não uma obrigação. Eis algumas formas de o adaptar ao teu processo:
- Se escreves por descoberta: preenche apenas as secções 1 e 2. Faz um plano solto do primeiro ato e deixa o segundo e o terceiro como perguntas em aberto. Tens agora estrutura suficiente para começar a escrever sem sentires que estás numa caixa. Volta ao modelo depois do primeiro rascunho para mapeares o que escreveste de facto.
- Se és de planear: preenche todas as secções. A divisão cena a cena da secção 5 é o teu roteiro de escrita. Vais continuar a descobrir coisas durante o rascunho que te surpreendem - e ainda bem. Atualiza o plano à medida que avanças.
- Se estás a escrever uma série: duplica este modelo para cada livro e acrescenta um documento da série que acompanhe os fios de enredo que percorrem a série, os arcos de personagem que atravessam vários livros e os elementos de construção do mundo que evoluem de livro para livro.
- Se estás a rever: preenche este modelo depois de terminares um rascunho. Compara o que escreveste de facto com a estrutura. As diferenças entre intenção e execução vão revelar exatamente onde é preciso rever.
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