Modelo

Modelo de beat sheet

Última atualização 9 min de leitura

A beat sheet de Save the Cat!, de Blake Snyder, foi pensada originalmente para argumentistas, mas tornou-se uma das ferramentas de estrutura mais adotadas na escrita de ficção. A razão é simples: funciona. A beat sheet divide uma história em quinze momentos-chave, cada um com uma função clara e uma posição aproximada na narrativa. Dá aos autores um esqueleto estrutural suficientemente pormenorizado para ser realmente útil e suficientemente flexível para acolher histórias muito diferentes.

Este modelo guia-te por cada um dos quinze momentos, explica o que cada um faz e dá-te espaço para mapeares a tua própria história nesta estrutura. Quer estejas a planear um romance, um guião ou um conto, a beat sheet é um diagnóstico fiável de ritmo e estrutura.

Um aviso antes de começarmos. A beat sheet é uma ferramenta, não uma camisa de forças. As percentagens são orientações, não leis. Algumas das melhores histórias torcem estas proporções de propósito. Usa a beat sheet para perceberes porque é que cada momento importa e depois decide com conhecimento de causa onde colocar cada um na tua história.

Momento 1: imagem de abertura (0-1%)

A imagem de abertura é uma fotografia do mundo do teu protagonista antes de a história o mudar. Estabelece o tom, o cenário e o estado atual do protagonista. Pensa nela como a fotografia do "antes" numa comparação antes e depois. A imagem final (momento 15) será o "depois", e a distância entre as duas mede o arco da tua história.

O que escrever aqui: descreve a cena, o ambiente e o estado da personagem com que tencionas abrir. O que deve o leitor sentir e perceber nas primeiras páginas?

Momento 2: tema enunciado (5%)

No início da história, alguém enuncia o tema - normalmente ao protagonista, que ainda não está em condições de o perceber. Pode ser um conselho, uma pergunta, uma frase dita de passagem numa conversa. O protagonista ouve, mas ainda não apreende o seu sentido. O leitor também pode não o apreender numa primeira leitura. Mas, no fim da história, esta frase vai ecoar como a espinha dorsal temática de toda a narrativa.

O que escrever aqui: qual é a questão temática da tua história? Quem a enuncia e em que contexto? Como reage (ou não reage) o protagonista no momento?

Momento 3: apresentação (1-10%)

A apresentação dá a conhecer o mundo comum do protagonista: as suas relações, as suas rotinas, o seu statu quo. Planta também as sementes daquilo que falta na sua vida. Ao fim da apresentação, o leitor deve perceber quem é esta personagem e o que lhe falta, mesmo que a própria personagem não veja essa falta. Todas as personagens, subenredos e elementos de cenário que vão importar mais tarde devem ser apresentados ou prenunciados aqui.

O que escrever aqui: lista os elementos principais do statu quo do protagonista. Que relações, hábitos e circunstâncias definem a sua vida? Qual é o elemento "estagnar é morrer" - aquilo que vai tornar esta vida insustentável?

Momento 4: catalisador (10-12%)

O catalisador é o incidente desencadeador: o acontecimento que perturba o mundo comum do protagonista e põe a história em movimento. Deve ser um acontecimento concreto e exterior - não uma tomada de consciência gradual. Um telefonema, uma morte, uma descoberta, uma chegada, uma partida. Acontece algo e a vida antiga do protagonista já não pode continuar como antes.

O que escrever aqui: qual é o acontecimento único que perturba o statu quo do teu protagonista? Concretiza. Se não consegues apontar um momento concreto, o teu catalisador pode estar demasiado difuso.

Momento 5: debate (12-25%)

O debate é o período de hesitação do protagonista. Recebeu o chamamento à aventura e agora pondera se deve responder-lhe. Não se trata de uma contemplação passiva do próprio umbigo - deve ser um conflito ativo, interior e exterior. O protagonista recolhe informação, consulta aliados, pesa os riscos. É na secção do debate que mostras porque é que a jornada do protagonista importa e porque é que dar o primeiro passo é realmente difícil.

O que escrever aqui: o que impede o teu protagonista de seguir logo na nova direção? Quais são os argumentos para ficar no statu quo? O que faz pender a balança para a ação?

Momento 6: entrada no ato II (25%)

É o ponto de viragem entre o ato I e o ato II. O protagonista faz uma escolha definitiva: deixar o mundo antigo para trás e entrar na nova situação. Tem de ser uma escolha, e não algo que lhe acontece. O protagonista tem de decidir enfrentar o conflito central. É este compromisso ativo que distingue um protagonista de um passageiro.

O que escrever aqui: que escolha faz o teu protagonista? O que deixa para trás e em que está a entrar? Porque é que este é um ponto sem retorno?

Momento 7: história B (22-30%)

A história B apresenta uma linha de enredo secundária, muitas vezes uma relação que vai carregar o argumento temático. Em muitas histórias, é um interesse amoroso. Mas também pode ser um mentor, uma nova amizade ou um rival. A personagem da história B torna-se muitas vezes o veículo através do qual o protagonista aprende a lição enunciada no momento 2. Enquanto a história A põe o protagonista à prova por fora, a história B desafia-o por dentro.

O que escrever aqui: quem é a personagem da história B? Qual é a sua relação com o protagonista? Como se liga esta relação ao tema?

Momento 8: diversão e jogos (25-50%)

É a "promessa da premissa" - a parte da história que cumpre o conceito que levou o leitor a pegar no livro. Se o teu romance é uma história de assalto, é aqui que vemos a equipa a planear e a executar. Se é um romance amoroso, é o namoro. Se é um policial, é a investigação. O protagonista está ativo no novo mundo, a encontrar obstáculos e pequenas vitórias, mas o peso total do conflito ainda não lhe caiu em cima.

O que escrever aqui: que cenas cumprem a promessa da tua premissa? Lista as grandes cenas, os encontros e as descobertas que tornam esta secção cativante. Que pequenas vitórias e desafios crescentes enfrenta o protagonista?

Momento 9: ponto médio (50%)

O ponto médio é uma grande viragem que aumenta o que está em jogo e muda a direção da história. Ou é uma "falsa vitória" (o protagonista parece estar a ganhar, mas a vitória é oca ou temporária), ou uma "falsa derrota" (o protagonista sofre um revés que acabará por o reencaminhar para a verdadeira solução). Seja qual for, o ponto médio muda a natureza do conflito. Revela-se informação nova. O protagonista passa a compreender melhor o problema. Começa a contagem decrescente.

O que escrever aqui: o teu ponto médio é uma falsa vitória ou uma falsa derrota? Que informação nova ou reviravolta surge? Como muda o que está em jogo?

Momento 10: os maus apertam o cerco (50-75%)

Depois do ponto médio, as pressões exteriores intensificam-se e as dúvidas interiores multiplicam-se. O antagonista (seja uma pessoa, um sistema ou as próprias falhas do protagonista) ganha terreno. A equipa desfaz-se. Os aliados vacilam. Os subenredos convergem e a pressão aumenta. Esta secção deve dar a sensação de que as paredes se estão a fechar. Cada vantagem que o protagonista conquistou na fase de diversão e jogos é desgastada ou complicada.

O que escrever aqui: como se intensifica a força antagonista depois do ponto médio? Que dúvidas interiores ou traições exteriores minam o protagonista? Como é que os subenredos aumentam a pressão em vez de a aliviarem?

Momento 11: tudo está perdido (75%)

O momento "tudo está perdido" é o ponto mais baixo do protagonista. Algo ou alguém se perde - às vezes literalmente (uma morte, uma partida), às vezes figurativamente (a perda da esperança, da confiança ou do propósito). Snyder chamou-lhe o momento do "cheiro a morte", porque envolve muitas vezes uma morte real ou simbólica. O plano original do protagonista falhou por completo e a velha forma de fazer as coisas já não é viável.

O que escrever aqui: o que se perde? O que torna este momento irreversível? Como elimina as defesas que restam ao protagonista?

Momento 12: noite escura da alma (75-80%)

A noite escura da alma é o rescaldo emocional do momento "tudo está perdido". O protagonista senta-se nos destroços e processa o que aconteceu. É o momento de introspeção mais profunda, em que o protagonista enfrenta a mentira com que tem vivido e começa a ver a verdade - mesmo que ainda não consiga agir em conformidade. Não apresses este momento. O peso emocional do clímax depende de o leitor sentir o desespero do protagonista por inteiro antes de a esperança regressar.

O que escrever aqui: como reage o protagonista à perda? O que percebe sobre si próprio, sobre a sua abordagem ou sobre a sua crença errada? O que desencadeia a passagem do desespero para a determinação?

Momento 13: entrada no ato III (80%)

Munido de uma nova compreensão (muitas vezes uma síntese da lição da história A e da relação da história B), o protagonista concebe um novo plano. É o ponto de viragem para o ato III. O protagonista largou a mentira e abraçou a verdade, ou pelo menos vislumbrou-a com clareza suficiente para agir de outra forma. O novo plano junta o que aprendeu na história A (competência exterior) ao que aprendeu na história B (crescimento interior).

O que escrever aqui: qual é a nova abordagem do protagonista? Em que difere do plano antigo? Que lição da história B orienta esta nova direção?

Momento 14: final (80-99%)

O final é a sequência do clímax. O protagonista executa o novo plano e enfrenta de frente o antagonista e o conflito central. Snyder dividiu o final em cinco submomentos para os guiões, mas nos romances os princípios essenciais são estes: o protagonista tem de ser o agente do seu próprio sucesso (nada de cavalaria a chegar para o salvar), o arco interior deve resolver-se a par do conflito exterior e a solução deve nascer de sementes plantadas mais cedo na história. Cada arma de Tchékhov que carregaste na apresentação deve disparar aqui.

O que escrever aqui: planeia a sequência do clímax. Como enfrenta o protagonista o antagonista? Que escolha demonstra a transformação interior? Como se resolvem os subenredos?

Momento 15: imagem final (99-100%)

A imagem final espelha a imagem de abertura e mostra como o protagonista e o seu mundo foram transformados pela história. Se a imagem de abertura mostrava uma pessoa solitária num apartamento silencioso, a imagem final pode mostrá-la rodeada de gente, ou sozinha por escolha e não por defeito. O contraste entre o momento 1 e o momento 15 é a prova visual do arco.

O que escrever aqui: qual é a última coisa que o leitor vê? Como contrasta com a imagem de abertura? O que comunica sobre a transformação do protagonista?

Como personalizar este modelo

A beat sheet é notavelmente adaptável a géneros e formatos diferentes. Eis algumas formas de a pôr a funcionar no teu projeto:

  • Para romances: as percentagens traduzem-se, grosso modo, em proporções de páginas ou de palavras. Um romance de 90 000 palavras chega ao ponto médio por volta das 45 000 palavras, ao catalisador por volta das 9000-11 000, e assim por diante. Usa estas marcas como alvos, não como valores absolutos. Ficar a 5-10% delas é suficiente.
  • Para guiões: as percentagens originais de Snyder correspondem com precisão às páginas de um guião de 110 páginas. É aqui que a beat sheet é mais precisa.
  • Para séries: cada livro de uma série pode seguir a sua própria beat sheet, enquanto a série no seu conjunto segue uma beat sheet de maior escala. O ponto médio do segundo livro de uma trilogia funciona muitas vezes como ponto médio da história global.
  • Para narrativas não lineares: os momentos continuam a aplicar-se, mas podem ser apresentados fora da ordem cronológica. Mapeia-os pela ordem da narrativa (a ordem em que o leitor os encontra) e não pela ordem cronológica.
  • Para ficção literária centrada nas personagens: os momentos exteriores podem ser subtis - uma conversa em vez de uma explosão -, mas a função estrutural mantém-se. O catalisador continua a ser uma rutura, o ponto médio uma viragem, o momento "tudo está perdido" uma perda. Muda a escala; a arquitetura não.
Mapeia os momentos-chave da tua história no Plotiar. Usa um documento para cada momento e um fluxograma para visualizares as ligações entre os pontos de viragem, tudo num só projeto. Experimenta grátis.

Queres começar a escrever?

Planeia, escreve e colabora num único espaço de trabalho feito para escritores.

Experimenta o Plotiar grátis

Com a tua autorização, utilizamos cookies de análise para perceber como o Plotiar é usado e melhorá-lo. Se recusares, não é enviado nenhum dado de análise. Os cookies necessários para o início de sessão e a segurança estão sempre ativos. Política de cookies